10/10/2012

Piada engraçada. Para quem?

Eu sempre tive problemas com piadas. Mesmo na época em que eu dizia que comédia era meu gênero de filme favorito, eu já tinha esses problemas. Por isso até que no final dos anos 90, começo dos anos 2000, eu já não assistia esses problemas humorísticos da tv. Nem "a praça é nossa", muito menos " zorra total", e ouso  até exagerar, nem "as cacetadas do Faustão".


Nunca achei digno de riso a desgraça alheia, a humilhação alheia. Nós que fomos nerds na época da escola sabemos que enquanto uma pessoa ri, a outra chora, e para mim não é humano rir nessas condições. Em hipótese alguma.

Acho que já nasci assim, mas dois fatos reforçaram: a) quando eu tinha, sei lá, uns 10 anos, meu irmão foi diagnosticado com comportamento autista. As crianças do prédio que eu morava adoravam tirar sarro. Enquanto elas se divertiam, eu ficava extremamente chateada, ainda mais porque meu irmão não podia se defender. Me tornei um pouco intolerante, assumo, desde então. Fez piada com qualquer tipo de deficiência física, mental, ou o que for, ou vai ouvir um discurso enorme (que venho praticando ao longo destes 10 anos) ou vai sentir o meu total desprezo - e até a pessoa mais avoada percebe que eu mudo completamente. Sei que ninguém precisa saber lidar com as deficiências (ainda mais porque elas são super diversas), mas acho que fazer piada e desrespeitar é o cúmulo da falta de humanização, não tenho porque tolerar.

b) quando, por volta dos meus 14 anos, eu me descobri bissexual, comecei a ficar mais sensível com as causas gays. Mesmo que naquela época já fosse óbvio para mim que não havia problemas em uma pessoa ser gay, quanto mais eu reparava nos outros, mais eu descobria como a sociedade via nisso uma grande aberração. Eu juro, para mim não faz sentido nenhum, nenhum dos argumentos contra a homoafetividade! É uma coisa que eu não consigo nem entender... Mas enfim, percebi que por trás de "ah, seu viado", "igual a uma bicha louca", "vai tomar no cu", tem uma ideologia que prega que ser gay é errado/feio, e que portanto você pode xingar seu amigo de viado, e mandar ele tomar no cu, que ele, automaticamente sendo comparado a um gay, fica verdadeiramente ofendido. Meu total desprezo para todos que fazem isso.

Essas são experiências pessoais minhas que eu não quero que sejam perpetuadas através de piadas. Porque, sim, a gente perpetua ideias, concepções, esteriótipos, ódio e descriminação através da piada. Ou nenhuma mulher nunca ouviu que tem porte de arma pra se referir à carteira de motorista? Sempre fico me perguntando "para quem" aquela piada é engraçada. Só pra quem oprime, ou pra vítima totalmente alienada que não percebe que estão rindo dela.

Eu como vítima de muitas descriminações feitas através de piadas me sinto menosprezada, desvalorizada, desumanizada e desrespeitada. E eu não quero que outras pessoas se sintam assim.

Você pode não se sentir ofendida ou ofendido com as piadas sobre mulheres, negros, gays, pessoas gordas, deficientes, loiras, corintianos, etc, mas saiba que quando você ri você assina um contrato dizendo que concorda tanto com aquilo, que você até se diverte. E saiba que em algum lugar, alguma pessoa mais desequilibrada espanca ou mata alguém por conta das mesmas ideias que te fazem rir.

Ainda acha graça?

Pois eu não acho e não dou risada por educação. 





Só pra frisar porque eu realmente acho necessário. Eu sou uma pessoa divertida, ao contrário da possível imagem que o post pode ter causado x) Quem convive comigo sabe que eu dou muita risada. Eu adoro rir e valorizo muito quem me faz rir. Também conto as minhas piadas e tento ser engraçada. Isso só comprova que esse discurso de que o humor vai acabar por causa do politicamente correto é discurso de reacionário. Fique espert@!
Outra coisa, como uma boa educadora que desejo ser, eu não xingo nem brigo nem humilho quem faz piadas que eu considero sem graça, sobre assuntos que não são para brincar. Já briguei muito, mas agora entendo que as pessoas precisam se conscientizar antes de mudarem. Mas não posso - e nem vou - ser incoerente com o que eu acredito, porque é um desrespeito não só a mim, mas também a quem me dirige a piada, fingir que achei engraçado só por educação.
É isso, exagerado talvez, mas sincero. Para pensar :) 

3 comentários:

  1. essa foi na cara de algumas pessoas. eu também não gosto desse tipo de piada. aliás,quando alguém já chega com uma dessas pra me diminuir fico brava mesmo. é caso de esfriar amizade. não tolero. mas,também não sei como proceder. ao contrário de você,não tenho um discurso pronto =T
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  2. Uma vez um amigo me disse que uma piada só é uma "piada" quando todos riem. E eu achei isso tão incrível que nunca mais esqueci. Acho que combina totalmente com esse post que eu achei muito bom, apesar de (não vou ser hipócrita de negar) dou umas risadas com umas piadas dessas sim. Às vezes é tão natural que a gente nem nota que por trás dela tem algum tipo de preconceito, mas quando eu noto, não rio não, acho que pode conscientizar a pessoa que contou de que aquilo não é engraçado para todos. ;)

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  3. Nem apenas piadas, Natália, mas eu não rio e nem concordo com uma séri de comentários machistas/homofóbicos/xenofóbicos e etc. Esses dias falei pra um cara (que disse que alunos de escolas públicas fariam cair o rendimento de universidades públicas e que os diplomas das mesmas seriam desvalorizados por conta da entrada deles)que seu argumento preconceituoso era uma bosta!Isso me rendeu uma expulsão de um grupo no facebook, mais uma série de humilhações, até escrevi sobre isso no blog.
    Acho incrível como estas pessoas que falam coisas tão absurdas e nojentas depois, querem falar sobre respeito e boa educação!Hipocrisia é de fato, algo que me causa nojo e repulsa!Sempre me dou mal pq ,cm vc disse, não consigo me calar quando vejo essas coisas acontecerem.

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