31/10/2013

A guerra não declarada na visão de um favelado (II)

Há exatos 1 ano (nossa, como o tempo voa!) eu postei aqui contanto que tinha comprado o livro "A guerra não declarada na visão de um favelado" do Eduardo. Postei só contando que eu tinha o livro em minhas mãos, mas que ainda não tinha começado a ler. Apesar de eu não contar nenhuma grande informação, foi legal porque apareceram muitas pessoas por aqui interessadas no livro.

Eu comecei a ler o livro, mas, infelizmente não consegui terminá-lo. Primeiro porque o mestrado tem exigido muito e eu não posso me dar ao "luxo" de ler algum livro que não vá me auxiliar diretamente na escrita da dissertação. Segundo porque o livro é bem pesado, e por isso não dá pra ler muitas páginas seguidas. Dá uma angústia e uma tristeza do mundo e é preciso refletir muito pra seguir na leitura. Terceiro porque meu namorado pegou o livro pra ler e ainda não me devolveu :P

De qualquer forma, fiquei sabendo que o Eduardo etá fazendo palestras, não sobre o livro, mas sobre a ideia do livro, e não é bem uma palestra, é mais uma roda de conversa. Enfim, o Eduardo está participando de encontros pra conversar com a galera sobre essa opressão, sobre os mecanismos de alienação, sobre as grandes corporações e seus bilionários rendimentos, sobre a desigualdade social, e todas as outras coisas que instigaram o Eduardo a escrever o livro.

Como a vida é loca, acabei indo com o meu namorado até Santos para assistir a palestra.
Chegando no lugar, foram várias sensações diferentes. Primeiro porque o evento era na Associação Cortiços do Centro, uma associação autogestionária que está construindo moradias populares (dá pra ver uma foto dos prédios em construção, clica aqui). Essa associação, pelo o que nos pareceu, está ligada à União Nacional por Moradias Populares. Gente, não tem coisa mais rica que isso, procurem conhecer!

Segundo porque antes das palestras vários grupos de Rap se apresentaram. E foi bacana demais ver a galera fazendo música, mostrando a sua ideia, e, mais ainda, mostrando que é consciente da realidade política e social, e, ao mesmo tempo, apontando sugestões, soluções, caminhos alternativos que não seja o crime e a violência. Bacana demais!

Terceiro porque lá na Associação tinha criança, tinha jovem e tinha adulto, todos juntos, interagindo, ouvindo o Rap, disposto a ouvir o outro, a aprender com o outro. Ao menos foi essa a impressão que me deu.

Quando o Eduardo chegou eu não pude nem fingir que eu não senti uma emoção tremenda. Pô, eu sempre gostei de Rap, e ver um ícone do Rap Nacional, tão de perto, tão real, tão disponível, olhando no seu olho, conversando com você é emocionante demais! - mesmo que eu nunca tenha sido, assim, tão fã do Facção Central.

foto daqui

Para mim a conversa não foi nenhuma novidade. Eu sei que falar assim parece prepotência. Mas é que eu não ignoro que o mundo é podre, que o capitalismo é destrutivo, que a sociedade é desigual e injusta. Eu não acho que pobre é incapaz ou preguiçoso. Eu não confio na mídia, não confio no governo, não confio na educação. Então, de certa forma, nada do que ele falou me surpreendeu. Mas isso porque eu ouço Rap, porque eu leio e estudo muito, porque eu converso com as pessoas sobre política (política não partidária).

Quando você ignora ou quando você realmente não sabe que a sociedade é assim podre, você pode se chocar. E foi o que eu vi acontecer nesse dia. A voz firme do Eduardo penetra na sua mente, te faz pensar, reavaliar seu dia-a-dia, sua postura, suas ações. Faz você perceber que sim o sistema quer te destruir - e sinto muito em dizer, embora possa soar deveras de direita: a classe média também é vítima nesse sistema, porque mesmo que a gente não seja "a escória", a gente não é "patrão", e são os patrões, os chefes, os donos que dominam tudo isso. A classe média, a classe C, D, são apenas marionetes. 

Mas o Eduardo não falava para a classe média. Falava para a periferia, para moradores de cortiços, para pessoas do movimento Hip Hop, para os empacotadores de supermercado, para as domésticas e para os ajudantes de pedreiros - aqueles que até nós, classes mé(r)dias, menosprezamos.

E foi bonito a galera se manifestando, falando como a tv aliena, como a novela ilude, como o jornal engana. As senhoras se despertando, os jovens testemunhando a tentação de entrar para o crime. Falaram sobre educação, sobre família, sobre exemplos, manifestações de ruas, participação política, conscientização, movimentação....! Teve um menino que falou de Paulo Freire, ele disse algo como: "Quem a gente tem como referência? O Ronaldo Fenômeno. Mas por quê? E Paulo Freire? Quem já ouvir falar de Paulo Freire? Ele sim devia ser a nossa referência!" Emocionei demais!

Embora o Eduardo tenha focado muito na transformação pessoal, eu acredito no coletivo. Sim, cada um deve passar pelo seu próprio processo de conscientização, de transformação, mas as nossas referencias, nosso apoio, nossas companhias influenciam muito, e elas não devem ser ignoradas nem ao menos desconsideradas. Mas de qualquer forma achei aquele encontro muito importante, muito, de verdade!

Saí de lá mais de esquerda, mais consciente do meu papel como educadora, mais sensível com a periferia.
E vamo seguir a vida, em busca da revolução!


Foto que a gente tirou. Sem zoom! Ele tava pertinho mesmo! :')



Veja: A guerra não declarada na visão de um favelado

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