Eu sei que eu acabei de postar e nem deu tempo de ninguém ler o último post, mas preciso, mesmo assim, postar de novo, antes que eu esqueça de uma coisa que aconteceu - daquelas coisas que a gente não pode esquecer!
Queria deixar claro que tudo o que eu vou falar não é com a intenção de vocês ficaram pensando "nossa, como ela é uma pessoa de bom coração", porque eu não quero me autopromover como essas coisas - como eu sei que muita gente faz. Como eu disse, estou escrevendo porque eu não quero esquecer disso, porque eu sei o quanto eu reclamo da vida, e porque isso mexeu muito comigo.
No último dia do festival, como eu disse no post anterior, a turma de Danças Portuguesas e do Mundo fez uma aula em uma praça, e a turma de Músicas do Mundo e de Violão Popular participaram tocando as músicas pra gente dançar. Foi lindo, foi contagiante! Todo mundo saiu de lá sorrindo e feliz!
Quando já tinha acabado, me juntei com os meus amigos pra gente ir almoçar juntos. Enquanto nos organizávamos para isso, um homem veio pedir dinheiro. Estudantes que somos, não tínhamos dinheiro, e eu também não estava com a minha bolsa, então eu só dei uma garrafa de água que eu tinha, e ninguém deu mais nada. Mas ele não foi embora.
Ele tirou do bolso sua carteira de trabalho, e disse: "eu sou trabalhador, mas eu fiz as escolhas erradas". Meus amigos não deram bola, e eu não os julgo por isso, sempre ouvimos nossas mães dizerem para não falar com estranhos. Mas o homem tinha um par de olhos verdes tão tristes, e um sotaque do sul tão sofrido, que eu fiquei escutando tudo o que ele falava.
Encurtando a história, porque ficamos lá uma amiga e eu, conversando com ele por 15 minutos, enquanto os outros já tinham ido almoçar, ele dizia que ia se matar. O argumento para isso: ele queria voltar para a cidade dele, em Itaúna, onde estaria a sua filha, de 12 anos, mas ele não conseguia o dinheiro para a passagem, e por isso já havia andado muito pela estrada, chegando até Ourinhos. Ele dizia estar cansado, sujo, humilhado, e que ouvia o Diabo rir dele, dizendo: "se joga na frente de um caminhão, ninguém vai sentir sua falta". E o homem, convencido, dizia: "eu devia ter feito isso".
Como eu sou espírita, fiquei transtornada em ouvir alguém planejar a própria morte dizendo que já sabia onde comprar um veneno que era tiro e queda. Para os espíritas, interromper a vida não é sinônimo de "vida melhor", muito pelo contrário, o sofrimento continua e por vezes, é até pior (explicando toscamente). Então, o meu eu espírita, queria convencê-lo de não fazer isso, mas o meu eu pagão (porque nem um lado meu é ateu) não via futuro melhor, e nem mesmo esperança.
O homem dizia: "se eu morrer, minha filha fica com a minha casa, e ela vai poder se orgulhar de ter um pai que preferiu se matar a sofrer humilhações". Na minha cabeça, isso não fazia sentido, mas eu não queria dizer isso pra ele, porque eu não sabia também as condições de vida dessa filha, e tudo mais. Mas eu fiquei desesperada: eu tinha na minha frente uma pessoa decidida a se matar, me contando os porquê e os como. Não sei como eu consegui segurar o choro.
Diante de tudo o que o homem me disse, eu não consegui dizer: "acredite, Deus está do seu lado, uma hora tudo vai ficar bem", porque eu não sabia se no fundo eu acreditava nisso também, mas eu consegui dizer: "o Diabo tá rindo de você e você ainda vai fazer o que ele quer? Foge dele!". Eu ri, minha amiga riu, mas o homem não.
Como ele havia dito que a Fernanda (não sei se mulher dele, ou se só mãe da filha dele) frequentava uma igreja, eu sugeri que ele fosse em uma, antes de chegar a comprar o veneno e tal, nem que fosse pra ficar lá parado. Falei isso muitas vezes durante a conversa, e ele dizia sempre que não ia adiantar, que ele já estava decidido. Por fim, olhei para frente e vi a torre de uma igreja, então minha amiga e eu ficamos insistindo, já que seria só atravessar a rua, não ia custar nada. Ele relutou, mas nós insistimos tanto, que por fim ele cedeu.
Mesmo que as religiões tenham seus milhares de defeitos (porque são conduzidas pelos homens), eu acredito sim, que existem muitos bons espíritos dentro das igrejas, templos, centros, o que for, tentando elevar a vibração daquele lugar, emitindo luz para as pessoas que frequentam, e foi nisso que eu pensei quando eu sugeri que ele fosse para a igreja. Não que Deus fosse aparecer prometendo dias melhores, mas que essa luz acalmasse o seu coração, para ele, minimamente, repensar sobre o suicídio.
Esse homem falou tantas coisas que ficaram marcadas em mim... Fez um panorama tão real da situação econômica e social do Brasil.... Que eu sinceramente não tinha reação. E de fato, eu pouco falei, pouco me mexi. Ele falou muito, e eu o olhava nos olhos e rezava, vez ou outra eu falava alguma coisa. Eu ia falar o que? Eu que estava naquela cidade fazendo um curso, com o dinheiro do meu pai, e até aquele dia estava reclamando do frio e da situação do banheiro no alojamento onde nós estávamos? Qualquer coisa que eu falasse soaria hipócrita, porque, não, eu não sabia o que ele tava passando! Por isso parte de mim entendia a necessidade de acabar com a própria vida, porque eu nem imagino o que é passar por tudo isso!
Fiquei me lembrando das vezes que eu trabalhei com o TETO, das famílias que eu conheci, das histórias que eu ouvi e das coisas que eu vi. São pessoas vivendo suas sub-vidas tentando, do jeito que podem, sobreviver mais um dia. Com poucos recursos, pouca esperança... É triste, é desumano, é inacreditável!
Quando meus amigos já haviam voltado onde nós estávamos várias vezes nos apressando para o almoço, e eu já de saco cheio os dispensei, mas, mais tarde, um pouco receosa com eles, decidi ir almoçar e precisei então me despedir do homem, eu não sabia o que falar. Disse algo como "precisamos ir, me desculpa?", porque realmente me senti culpada em deixá-lo lá.
Mas o legal é que o homem já estava tão feliz (hipérbole) que ele não se incomodou. Fez até piada, dizendo que a sua filha era do tamanho da minha amiga que estava comigo (baixinha), e minha amiga disse que ele tinha olhos lindos, e ele respondeu: "mas não vai me ligar não, porque a Fernanda não vai gostar", e todos nós rimos. Quando reafirmamos que tínhamos que ir embora ele me abraçou, e depois abraçou a minha amiga.
Por um segundo achei estranho e senti medo, mas depois retribui o abraço, desejando passar para ele muita paz de espírito, calma e paciência. Era tudo o que, naquele momento, eu poderia dar, e que ninguém que ele abordasse na rua iria se dispor. Afinal, é tão mais fácil dar algumas moedas, não é?
Quando estávamos indo embora, ele disse que ia para a igreja, e eu senti um ar de quem não ia mais se matar (a menos não naquele dia), ele saiu sorrindo e isso me deixou muito feliz!
Saímos andando e do nada o mundo despencou em cima de mim. Comecei a chorar incontrolavelmente. Senti uma tristeza, uma amargura sem tamanho! - como se naquele abraço nós tivéssemos trocado as nossas energias. Pude sentir toda a sua dor, e me senti extremamente mal. Foi muito estranho, mas pelo menos consegui entender o que tinha dentro dele...
Estou escrevendo tudo isso para não esquecer. Não quero esquecer desse homem, José Carlos, a quem eu prometi rezas, e que me deu uma lição de vida fenomenal. Eu poderia contar tudo o que ele falou, e eu de fato queria, mas quero guardar algumas coisas só pra mim, porque eu ainda não digeri muito bem.
Quero também que todos pensem um pouco em suas vidas. Já perguntei muitas vezes aqui no blog: "o que você faz para mudar a realidade que te incomoda?", mas eu sei que não é tão simples assim. Estar incomodado não é condição para fazer a mudança. Deveria ser. Digo isso para mim também. E é por isso que eu não quero esquecer.



Me abalou muito também Nati.
ResponderExcluirFicarmos ali com ele foi um momento pra refletirmos também em nossa própria vida; o quanto nos doamos pra fazer cursos, especializações: viajamos, passamos frio, saudades de casa e etc, mas muitas vezes não temos tempo de dar um abraço, ouvir desabafos, conversar, chorar; fazer essas e outras coisas que fazem a vida realmente valer a pena.
Rezo pra que ele encontre um caminho e que, de alguma forma suas dores possam ser confortadas.
Obrigada por viver esse momento comigo,
Abs,
Mariana
Nossa ta parecendo uma cena de, sei la... de volta pra minha terra (?)
ResponderExcluirBHASHSAHBSAHBSAHBHAHBASSAH
a família da minha mãe também é toda esperita, minha avó, meu avo, a maioria dos meus tios.... eu lembro de uma vez ter participado de uma sessão (acho que era isso, sei la) eu só sei que fiquei com muito medo, nunca mais fui na igreja
ASHSAHUSAUHSAUHSA
e olha, vou te contar eu ja frequentei todas as religiões possíveis nessa vida, todas as igrejas possíveis.. a minha família é daquelas que todos são diferente e pensam diferentes sabe? Dai minha mãe, meu tio, minha avó, enfim todos me levavam pra uma igreja diferente, dai eu fiquei tão confusa que nem fiz mais questão de ir em nenhuma, e também eu "cresci" e comecei a entender que a maioria fala a mesma coisa só que de maneira diferente...
Mas eu sempre acreditei em Deus, na verdade eu gostava de acreditar no fato de existir uma ser, uma "pessoa" que é tão boa e generosa que cuida de todos nós, mas acho que eu meio que sempre acreditei desacreditando sabe? Foi ai que uns 2 anos atras eu estava na casa da a minha avó e a mulher do pastor disse que estava vendo um sequestro na minha família. Eu num levei muito a serio não... Mais passou 2 meses a minha irmã foi sequestrada! Eu ate me arrepio em falar isso, mais eu te juro! Não se preocupe, ela conseguiu fugir, mais foi um dos piores dias da minha vida,serio! Ainda mais por eu ser a mais velha e sempre cuidar dela, nesse dia eu num quis ir com ela no dentista por pirraça, e dai acontece isso :S se tivesse acontecido algo pior, eu juro que me sentiria meio que culpada :T Mais num aconteceu nada de mais, só alguns hematomas mesmo..
Dai menina, ano passado eu fui passar as ferias na casa da minha avó de novo, dai a mulher me chamou no canto e disse: tu vai encontrar um namorado! E ele vai ser moreno e alto. Menina, num, é que 2, 3 meses depois eu estava namorando O_O serio, muito sinistro! Ou essa muié tem visões/fala com Deus ou sei la, alguém do futuro ou ela chuta e sempre acerta :O
Bom, sinceramente pra mim não importa.. Pelo menos serviu pra mim acreditar que sim, tem alguém com planos pra mim e pra minha familiar, e eu creio que esse alguém é Deus!
Eu ainda não pretendo frequentar igreja, mas sempre que me sinto mal, ou preciso tomar uma decisão difícil eu leio a bíblia, na maioria das vezes eu entendo nada, mas me sinto confortável sabe?
E eu odeio quando alguém diz "vai ficar tudo bem, acredita em Deus" ja ouvi tanto isso na minha vida, que acho que peguei meio que raiva e_e
E você fez bem em não dizer isso pro homem, pq eu tenho certeza que milhões de pessoas ja disseram isso pra ele...
Serio, adorei sua atitude! Estou muito admirada!
Eu moro num bairro "meio rico" sabe, e vire e mecha tem mendigo aqui em casa pedindo comida, a minha mãe fala pra não dar pq eles vão vender pra comprar pinga/maconha, mas quando eu to sozinha eu sempre dou! Eles ate podem fazer isso que a minha mãe diz, mas sei la, eu acredito que eles nao tão nessa vida porque gosta né....
http://rascunhosdasuuka.com
Gente, meu comentários ficou enorme D: tudo culpa sua que me empolgou com esse texto que é uma verdadeira lição :B
ResponderExcluire eu adorei aqui viu? to seguindo o blog! bjbj ♥
Meus olhos estão marejados! Não apenas o homem, mas vc disse coisas muito bonitas que meu coração necessitava ouvir!
ResponderExcluirFico muito triste em ver cm essas pessoas são invisíveis nessa sociedade em que vivemos. lembro=-me d euma vez em que ,em uma visita aos posntos turísticos da cidade com a faculdade, aqui em SP, uma mendiga entrou na Catedral da Sé. NA CATEDRAL DA SÉ! E eu fui a única a conversar com ela!Ela perguntou se poderia dormir ali e eu não sabia, a peguei pelo braço e fui procurar alguém que a pudesse ajudar. tds me olharam com cara de repulsa por isso.
Não pareceu que vc estava querendo se exibir, muito pelo contrário! Vc me parece uma pessoa muito sensível e iluminada!Caso tenha interesse, leia na internet sobre um perfil psicológico chamado INFJ e veja se vc se identifica (é o meu perfil, me parece ser o seu tbm). Bjos e muita luz!
Li esse post com lagrima nos olhos.
ResponderExcluirÉ uma situação difícil, pois queremos ajudar e não sabemos como! Fiquei admirada pela sua compreensão, as pessoas gostam de ser ouvidas e compreendidas.
Que Deus ti ilumine á cada dia mais.
E espero realmente que esse homem não tenha tentada nada.
Você é uma ótima pessoa, de verdade. Fiquei emocionada com esse seu post, de verdade. Muitas pessoas ignoram o que vêem na rua. É claro que nem sempre o que ouvimos dos pobres coitados, são verdade, já vi muitos casos de pessoas que fingiam não andar ou não ver, mas na verdade eram normais e tinham casa própria e tudo.
ResponderExcluirEu também sou espirita, frequento o Allan Kardec, antes eu ia com mais frequência, mas agora eu vou quando dá na telha e sempre adoro as palestras que assisto lá.
Beijos. Tudo Tem Refrão
Poxa, não diga seu "lado pagão" não, afinal, nós também não aprovamos qualquer forma de degeneração do espírito, hehe
ResponderExcluirEsse post me emocionou muito, juro que não sei o que faria na sua situação. Às vezes, quando me pego reclamando da minha vida fico um pouco sem jeito e me sinto ingrata porque afinal eu tenho tudo e muita gente não tem nada!
Sua história me deu muito o que pensar, estou passando por um momento específico na minha vida na qual precisava ouvir/ler algo assim.
A propósito, criei uma área particular de posts e adoraria compartilhá-los contigo, se estiver interessada me avisa que eu te passo o link do registro :3
bjs
Que bela e triste história, Natália! Nossa, eu fiquei de coração partido com tanto sofrimento deste homem. >.<
ResponderExcluirFoi bom da sua parte ter postado aqui sobre isso. E ter ajudado o homem, afinal, quando estamos nessas condições, precisamos ouvir palavras de estímulo e força!
Isso aí!
Beijos!
delicadissima.com
AHUAHUAHA, sucesso heim Deusa?
ResponderExcluirBom, eu já li, vim aqui só pra ler os comentários.
A luta muda a vida! É o que eu posso te dizer...
Eu não quero comentar me prolongar mais do que isso, pq vc melhor do que ninguem sabe do que eu to falando.
Há muita infelicidade neste mundo, pra ente se procupr apenas com a nossa.
Particularmente me incomoda o sossego extremo, a pobreza extrema e até mesmo a tristeza alheia. N seu lugar eu com crtza tinha dado um jeitinho de comprar a passagem dele.
Engraçado é que quando a gente para pra olhar com mais carinhos aqueles que estão sofrendo ao nosso redor a gente aprende este tipo de coisa, coisas da vida.
Não são coisas ( na minah opinião) de Deus, nem planos de ninguem pra estas pessoas. O que faz realmente as coisas serem como são é nosso sistema consumista, individualista, competitivo e sectarista....as vezes foram escolhas erradas, mas tbm quem disse que deram a escolha certa pra ele fazer?
OPORTUNIDADe é algo que nem todos tem, por isso é sempre bom a gente saber o que fazer com a que nos é dada....seja por Deus, por Gaia, Alá ou dinheiro do trabalho dos seus pais.
Acredite no que quiser, mas acredite em você!
AMUTU
Nossa, mas que relato triste e lindo ao mesmo tempo! Definitivamente foi uma oportunidade unica, e adorei ler. Me fez refletir um pouco sobre a realidade desse país e foi tão intenso que ainda não sei bem o que falar sobre sua história!
ResponderExcluirMas acredito que você e sua amiga fizeram a diferença na vida (ou pelo menos no dia) daquele pobre homem, e espero que tenha um futuro bom esperando por ele, e que ele encontre um bom caminho na vida que não o leve para o lado do suicídio!
Obrigada por compartilhar essa experiencia aqui no seu blog!
beijos! :*
você queria ter a minha sensibilidade?
ResponderExcluireu que queria ter sua sensibilidade, eu não teria conversado com ele, muito menos abraçado.
Essa é uma historia muito triste.
Nossa, que história triste! Passo todos os dias por uma igreja onde fica bastante mendigos. Vários param as pessoas e pedem dinheiro, mas, por medo, apenas falo que não tenho e caio fora. O negócio é que eu sempre fico arrependida, sabe? Queria ter feito algo por eles, mas não sei nem por onde começar. Acho que teria medo de conversar com o mendigo, mas às vezes o que eles mais querem é serem notados e ouvidos. Achei lindo o post e também muito tocante.
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