Depois de um ano que eu me mudei para São Carlos nós já tínhamos mesmo perdido o contato. Depois de anos deixando nossas mães loucas porque saíamos da escola de música e íamos pra pracinha balançar no balanço, conversar e criar teorias sobre a vida, algo aconteceu e nós não tínhamos mais o que conversar. Tão estranho que nós fazíamos listas de assunto para que quando a gente se encontrasse na outra semana nós pudéssemos continuar com a nossa querida tradição de ficar conversando na rua até escurecer. E as nossas mães, ligando assustadas para nossos celulares porque ainda não tínhamos voltado para casa. Me lembro de uma vez que eu cheguei em casa chorando -- uma das raras vezes que eu não consegui esconder o choro dos meus pais -- e quando perguntaram o que tinha acontecido, contei "briguei com o Flavio", mas na verdade, era muito pior, pior do que ter discutido (coisa que eu não lembro de ter acontecido), era ver o quanto a gente se gostava, o quanto nós éramos amigos e nos dávamos bem mas que, sem nunca termos entendido porque, estávamos nos afastando um do outro!
Depois que nos formamos na escola de música, não tínhamos mais a rotina em comum que nos fazia tentar mais uma vez aquela conversa descontraída de horas e horas. Alguns meses depois, como fazíamos cursinho no mesmo lugar, nós nos encontrávamos pelos corredores, aqueles abraços apertados e longos, e sempre aquele saudosismo de outros tempos: "vamos lá fora conversar?"
Nunca mais foi igual embora tentávamos com muito amor e carinho. Eu já não conhecia seus amigos, e nem sabia o que ele ia prestar no vestibular. Ele tinha deixado a música de lado e nunca mais combinamos de assistir algum show juntos. Mesmo com tudo isso eu ainda dizia que você era o meu melhor amigo. Meu amigo de áries que era eu mesma em outro corpo, ao mesmo tempo que era o complemento de mim.
Não me lembro de termos conversado mais depois que eu me mudei para São Carlos. Essa foi uma mudança que ao mesmo tempo em que foi ótima, foi terrível. Não lidei muito bem no começo e optei por deixar pra trás toda lembrança que eu tinha de Campinas, dos lugares às pessoas. Me afastei de todos, jogando pedras, desejando não querer nada daquilo pra minha nova vida. Embora nunca tenha te contado, você foi uma das pessoas que eu acabei abandonando.
Depois do primeiro ano na faculdade tive três meses de férias, e acabei voltando para Campinas para visitar meus pais. Naquele mês eu já queria voltar para São Carlos, porque, além de tudo, eu estava organizando a calourada dos bixos que entrariam naquele. No meu último final de semana de férias, resolvi ir no centro comprar roupas. E aí começa toda uma série de coisas que eu não consigo acreditar que tenham sido ao acaso. Primeiro porque eu nunca gostei de comprar roupas, muito menos no centro, muito menos no final de semana, muito menos de manhã. Mas eu estava lá, no sábado, cedinho, no centro, comprando roupas.
Na hora de voltar, fiquei esperando meu ônibus no ponto onde eu sempre pegava o ônibus para ir para a casa dos meus pais. Depois de um ano fora da cidade, eu não sabia que o ponto daquela linha tinha mudado de lugar. Já meio nervosa, acabei pegando outro ônibus que passava mais ou menos perto de casa. Quando eu estava chegando em casa, o ônibus estava tão lotado, mais tão lotado, que eu não consegui descer no ponto certo, e acabei indo até o ponto final, que era o terminal do Shopping, pensando que então lá eu pegaria outro ônibus que fosse para a minha casa. Quando eu cheguei no terminal, vi que eu não tinha dinheiro para pegar outro ônibus, e, já com raiva de tudo, cheia de sacolas e um sol bem forte na cabeça, decidi ir a pé do Shopping para a casa dos meus pais. Seria um trajeto de mais ou menos 40 minutos, apenas uma descida, coisa fácil -- eu já tinha feito isso outras vezes.
Eu já tinha andado mais da metade do caminho e já estava muito próxima da casa dos meus pais. Percebi uma festa cheia de pessoas do outro lado da rua, e um garoto atravessando a rua e depois sumindo. Andei mais um pouco e esse garoto surgiu na minha frente dizendo uma coisa que eu não tinha entendidO e eu falei a frase que mais me irrita de lembrar ter falado na minha vida: "desculpa, não entendi". Ele tinha uma arma (ou não tinha, nunca saberei) embaixo da blusa e estava me assaltando. Pegou minha bolsa com tudo o que tinha dentro, e as sacolas de compra. Foi a primeira e única vez que eu fui assaltada na minha vida.
O que poderia ser uma coisa totalmente trágica hoje eu encaro como uma conspiração do Universo. Não consigo ter raiva daquele assaltante, não consigo ter raiva do ônibus errado nem de nada o que aconteceu.... porque foi por causa disso que eu tive que ficar mais uma semana em Campinas, para fazer meus documentos, e adiei minha volta para São Carlos.
Na segunda ou terça feira, não me lembro e algo em mim não quer descobrir, pra não guardar na memória a data específica, já que os sentimentos desse dia já são pesados demais para guardar, eu vi um e-mail do meu pai que dizia algo como "avisamos todos os trabalhadores que o filho da trabalhadora Tereza, Flavio Monteiro, faleceu". Sabe quando por um segundo você não acredita em uma coisa? Quando você não vê possibilidade nenhuma daquilo ser verdade? Meu pai e a mãe dele trabalhavam no mesmo lugar, foi enviado uma nota de falecimento para todos os empregados, não, infelizmente, não tinha chance daquilo não ser real.
Foi a primeira vez que eu chorei com a morte de alguém. Chorei incontrolavelmente, inconsolavelmente. Eu nem sabia chorar tudo aquilo, não sabia o que fazer com aquele choro, não conseguia entender, não conseguia pensar, eu só sentia uma tristeza e uma dor tão fortes, que eu só conseguia chorar.
O enterro era naquele mesmo dia. E é por isso que eu falo que o Universo, de um jeito bastante torto, estava por trás de tudo isso. Não pode ter sido o acaso! Se nada disso estivesse acontecido, eu estaria em São Carlos, estaria fora de casa, não teria visto o e-mail do meu pai, não teria como ter voltado para Campinas a tempo!
Minha mãe me levou ao enterro e eu não consegui falar uma palavra no carro. Eu só chorava. Não tinha coragem de ir até o lugar onde estava sendo o velório, não conseguia me aproximar de ninguém que eu conhecia. Quando alguns amigos da escola de música me viram, vieram correndo falar comigo, eles estavam preocupados porque ninguém mais tinha contato comigo e tinham medo que eu não ficasse sabendo. Eu fico imaginando como seria se eu não tivesse sabido, como seria descobrir depois de alguns anos, que meu melhor amigo morreu em um acidente...! Isso, sem dúvidas, é muito pior do que ser assaltada!
Com esses amigos, durante o velório, eu ri muito. Ri porque o Flavio era uma pessoa muito alto astral, muito divertida, não tinha como lembrar dele sem contar qualquer história engraçada! Todo mundo gostava dele, todo mundo se divertia com ele, era impossível que o velório fosse apenas com lágrimas. A gente ria, relembrava, chorava, ria, em um trágico encontro de amigos queridos que estavam distantes há muito tempo.
Numa época onde máquinas fotográficas digitais não eram tão comuns, só me entristece saber que não tínhamos mais fotos juntos e que não registramos nossos momentos divertido!
Hoje seria seu aniversário se estivesse com a gente na Terra. Meu querido amigo, filho de Áries, irmão, amigo, marido de mentirinha. Não consigo não lembrar de você, não consigo não chorar quando percebo que você morreu, mesmo que já tenham passado cinco anos. Sonho com o dia em que a gente vai se reencontrar e a gente vai poder dar aquele abraço de urso que durava minutos e que era tão apertado, tão gostoso, tão acolhedor! Rezo para que você esteja bem, e que também sinta saudades de mim! Você ainda é e sempre será o meu melhor amigo, o mais querido, aquele que eu nunca tive pudor, vergonha ou medo de falar qualquer coisa, por mais fora do padrão que pudesse ser. Sinto falta dos nossos fins de tarde, das idas ao cinema, das conversas, das músicas que trocávamos, de ver você tocar, de tocar com você, de rir toda vez que você levava um tombo, e de dizer que eu amo você, do jeitinho que você é! Sinto sua falta como nunca senti falta de ninguém! Eu te amo, e nunca, nunca, vou te esquecer! ♥


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