31/12/2012

Praia

houve um tempo em que era possível caminhar sozinha, tranquilamente, pela noite, e até mesmo caminhar pela praia. naquele tempo, com a desculpa de que iria ver se eu encontrava algum conhecido, eu saia de casa logo que o sol se punha e ia caminhando até a praia. lá eu sentava na areia e ficava me revesando entre olhar o céu e olhar o mar. a praia a noite sempre me encantou. nessa época eu pensava muito sobre a vida, sobre minhas escolhas, sobre as minhas frustrações e perdas. também planejava quais seriam os próximos passos e que atitudes eram urgentes. eu pensava tão profundamente que muitas vezes eu chorava pelo simples fato de me encarar, me reconhecer, me enfrentar e me aceitar. ao mesmo tempo em que é doído, é bom, é necessário. depois de alguns anos já não era possível sair de casa a noite sem estar acompanhada. e qualquer companhia, por mais bem intencionada que fosse, não permitia que meu encontro acontecesse. e esses encarar-me, com o tempo, com a falta de espaços propícios, com a correria do dia a dia, deixaram de existir.

não tem como os finais de ano não me lembrarem daqueles tempos. me sinto na obrigação de retomar tudo o que foi feito, o que foi aprendido no ano corrente, para poder melhorar o ano seguinte. mas não o faço. me acomodei a ausência da praia, da brisa do mar, do céu estrelado. mudo de ano apenas como quem toma um banho e diz "ai, que alivio", mas no fundo, vou continuar as mesmas práticas que me suam, me sujam e me cansam.

tem me custado essa falta de tempo para mim. mau humor fora de hora, sono desregulado é o que fica mais explicito, mas o descontentamento com o que ha de vir tem estado cada vez mais crescente. e a vontade de parar no tempo pra resolver todas as questões que me tiram o sono me fazem querer estar, agora, em uma praia, sozinha, sentada na areia, com a minha lista mental de assuntos para serem refletidos e ponderados, e só levantar quando tiver a certeza de que eu achei todos os caminhos que eu devo percorrer no próximo ano. sem isso, sigo com a maré, torcendo para que ela me leve para um bom lugar, agradecendo quando isso acontece, resmungando quando não, porém, de forma passiva, aceitando tudo o que me vem, sem ir além, sem voltar pra trás.

queria um tempo sozinha, começar o ano sozinha.

2 comentários:

  1. Natália, que texto lindo... que entrega!
    Eu tenho o mesmo tipo de pensamento... com o tempo a gente se acomoda e, como vc, tb me acostumei a "não parar pra pensar"... Infelizmente a gente só percebe isso quando está triste demais, deslocada demais... Mas felizmente creio que sempre é tempo para ponderar, como vc falou...
    Vamos nos esforçar para ficar um tempo sozinhas, refletindo sobre nossa vida e que 2013 nos proporcione isso!
    Um beijo enorme!

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  2. Gostei da sinceridade (embora seus textos sejam sempre sinceros). Acho que você fez a coisa certa nesta entrada de ano. Mais do que fazer uma lista de metas, é preciso se rever, se encarar. Eu já admiro sua coragem por isso - e confio em você, o que me dá certeza de que vai dar tudo certo.
    super beijo.

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