29/06/2011

Descubra a Orquestra

O projeto Descubra a Orquestra é uma iniciativa da OSESP para formar público para a música sinfônica. Ele leva alunos e professores de escolas para assistir um concerto na Sala São Paulo. Antes do concerto, um professor da escola selecionada para participar do projeto, precisa fazer um curso de capacitação para preparar os alunos para o ambiente e para o repertório. Inscrevemos a escola, e, com muita alegria, fomos selecionados. Foram 102 crianças, dessa escola estadual de um bairro de periferia (leia-se 'tenso'), 8 funcionários da escola, entre coordenadores, professores e inspetores, e nós 10 do PIBID. Como na nossa escola nós já estamos fazendo um trabalho com música, nós ficamos responsáveis em fazer essa preparação dos alunos. Nessas preparações, foram trabalhados aspectos como paisagem sonora, a consciência dos sons que fazem parte do nosso dia-a-dia, dos sons que fazemos, gerando reflexões sobre se eles são bons, se são ruins, como diminuir os sons ruins, etc. Os levamos para assistir concertos da Orquestra Experimental e da Camerata Vivace da UFSCar. Apresentamos os instrumentos de uma orquestra sinfônica, família por família. Mostramos três músicas do repertório que seriam tocadas no concerto, duas eruditas e duas populares. Como conseguir que aqueles alunos que ouvem funk, pagode, rap tivessem interesse de ouvir uma música orquestral?, uma ópera? Como fazê-los escutar uma música que tem duração de 8 minutos? Essa tarefa se torna simples quando você tenta ver tudo com os olhos dos seus alunos e planejar as suas atividades pensando neles. A tarefa mais difícil era: como fazê-los ficar em silêncio, sentados, prestando atenção? Desenvolvemos algumas atividades para direcionar a energia deles, fazendo-os se mexerem, gritarem, para então, mais calmos, ficarem sentados e em silêncio. Tarefa árdua, mas funcionou. A viagem até São Paulo foi um grande momento para conversarmos, não de professor-aluno, mas de pessoa para pessoa. Pudemos conhecer melhor quem não conhecíamos, contar piadas. Foi uma prática social incrível. Chegando em São Paulo, as crianças que estavam no meu ônibus ficaram espantadas com o lixo jogado no chão, as pessoas dormindo na rua, as pareces pixadas, o céu cinza; e no meio desse ambiente descontraído pudemos conversar sobre como tratamos o patrimônio público, como cuidamos da nossa escola... Ao passarmos pela cracolândia, o que teria uma conotação de sermão, se feito em sala de aula, se transformou num espelho onde as crianças, por um momento, se viram partes daquela realidade, e elas, por elas mesmas, decidiram que não queriam acabar assim. Já na Sala São Paulo, aquele palácio, todos – inclusive nós – ficaram de boca aberta com a grandiosidade, com o brilho, com o sonho que era aquele lugar. A Orquestra de Heliópolis, que se apresentou para nós, fez um concerto lindíssimo, muito animado, contagiante, que até os mais resistentes foram contagiados. Certa hora, o regente fez uma pergunta para a platéia, e, para surpresa, um garoto da nossa escola respondeu e respondeu certo. Nós aplaudimos muito, a orquestra aplaudiu, a sala toda ovacionou!, e, ao dizer que tocava violino, o garoto foi convidado para subir no palco para tocar alguma coisa, qualquer coisa, que a orquestra ia acompanhando. Meu! O garoto da 5ª série da escola! Subir no palco com a Orquestra de Heliópolis e tocar junto com ela! Fiquei muito emocionara. Todos gritavam por ele. Mas com vergonha, não foi. No final do concerto, quando havia se instalado uma grande euforia, onde todos estavam em pé cantando e batendo palma, um dos violinistas desceu do palco e subiu com o garoto, que, no palquinho do Maestro, regeu a orquestra, me fazendo cair em lágrimas, e com a orientação dele, fez os movimentos de corte, e a orquestra parou de tocar. Todos gritavam, eu gritei muito. Foi uma emoção sem fim. Imagina o que não passou na cabeça desse menino? Imagine a felicidade de ouvir tanta gente gritando por ele. Esse menino, com certeza, não voltou o mesmo para casa. E todos nós, reles mortais, que não subimos no palco, também não voltamos iguais. De um lado da rua a Sala São Paulo, do outro lado da rua a cracolândia. De que lado cada um escolhe ficar? Quando você não conhece a luz, parece natural seguir os caminhos que a vida indica para nós. Mas quando entramos em contato com algo que é muito mais grandioso do que a vida miserável que se pretendia ter, mais do que a lembrança de momentos bons, ganhamos a opção de escolher; escolher continuar nessa maré, ou escolher sair. Nós, com o simples propósito de dar a oportunidade para eles conhecerem algo novo, demos a chance deles escolherem ser algo novo, e isso, não tem recompensa que pague.

4 comentários:

  1. Muito legal. Sempre achei injusto categorizar quem é da periferia como os do funk, do raggae, hip-hop etc., como se fosse impossível sair de lá um pianista, por exemplo. É claro, é impossível se ninguém nunca aprender, se nunca conhecer.
    Você sempre de parabéns e admirável, Nat :)
    Bjs

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  2. Minha querida, cada vez que eu venho ler um pouco das suas experiências aqui no seu blog, eu saio diferente de como eu entro. Preciso vir sempre, pra não esquecer de que estes sonhos que eu (também) tenho não são meros sonhos e que tem gente que ao invés de só sonhar, arregaça as mangas e os EXECUTA. Obrigada, de verdade.
    beijo grande.

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  3. HAuHAhuA..que bom!
    Sempre compensa acreditar na luz, mesmo que a escuridão domine o ambiente.

    Desejo do fundo do coração que você nunca deixe de sentir o que vc sentiu durante essa viagem, e que isso possa te proporcionar e a seus alunos muitas reflexões!

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  4. Cara, que LINDO esse post e esse trabalho. Estou toda arrepiada. Sério!
    Eu acho música clássica uma coisa louquíssima, não entendo nada de técnica, mas sempre me emociono muito quando ouço, no som, ao vivo, na tv... Tenho certeza que esses alunos foram transformados por essa experiência, e que ela trará muitos reflexos positivos para a vida de todos eles. Parabéns! ;)
    Beijos!

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