01/02/2013

Morte e vida

Sentada em um dos troncos daquela árvore, eu ensaiava a melhor forma de descer dali. Eu já estava há tanto tempo naquela árvore que minhas mãos e pés mudaram de textura para que eu pudesse ficar sem escorregar. Haviam outras mudanças igualmente grandes, mas eu já não distinguia a árvore de mim. Foi bom o tempo que eu passei ali. Os deliciosos frutos e o orvalho da manhã impediam que eu tivesse fome ou sede, as folhas me davam sombra. Conforme o caminhar do sol, um calor gostoso vinha me acordar. Não foram ruins os dias que se passaram, mas as noites eram difíceis. Se ventasse ou chovesse eu tinha a sensação de que iria ser arremessada de lá. Eu não tinha coragem de dormir por medo de que uma tempestade viesse sem que eu estivesse preparada para ela. Mas eu sempre dormia, e a tempestade sempre vinha.

Era um pesadelo, e eu não mais sabia diferenciar a chuva que caia em mim das lágrimas que eu derrubava. Eu ficava me perguntando o tempo todo porque mesmo que eu não simplesmente me soltava para correr para um lugar seguro. Quando por fim a tempestade passava, o dia raiava, meu coração ordenava que a partir daquele dia tudo ia ser diferente. Mas nunca era.

Depois de muitos anos, algo me dizia que eu já não estava com a minha saúde mental perfeita. Tudo o que eu fazia ou pensava mostrava que essa vida não era saudável, que essa troca entre a árvore e eu já não era amigável, que aquilo não podia continuar assim. Os pesadelos vinham me visitar de dia, não só na forma de grande ventanias, mas também na lembrança dessas tormentas. E no meio de um surto, de um desejo louco de conseguir viver em paz, eu pulei.

Pulei e saí correndo o mais rápido que pude, para esquecer das frutas e do orvalho, da sombra e do gostoso sol. O vento que batia no meu rosto me lembrava as grande ventanias e isso me dava forças para continuar correndo, de olhos fechados, sem olhar para trás.

Quando meu corpo já não aguentava mais eu parei. Me vi perdida, me vi sem rumo, sem abrigo, sem consolo. Pensava em voltar, mas não achava justo. Não era justo comigo me submeter às tormentas. Não era justo com a árvore depois de tudo o que eu fiz.

Sem um plano definido, sem saber o que fazer, deitei e fiquei acariciando as gramas, desejando que ali nascesse uma árvore que pudesse substituir o vazio, ou que a Terra se movesse de tal forma que a minha árvores chegasse até a mim, prometendo dias melhores.

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